Machismo é hábito, não é destino
Assim como o racismo, o machismo também é cultural. Está enraizado na sociedade, independentemente do gênero. Fatores como origem geográfica, escolaridade, sua religiosidade e até o comportamento influenciam a intensidade dessa postura. Esse machismo não fere apenas as mulheres; prejudica também os homens, tornando-os, muitas vezes, mais inseguros, mais impulsivos e rígidos.
Vale parar e pensar: às vezes, o simples fato de um homem não gostar de comidas "de raiz", como jiló, miúdos, chouriço ou dobradinha, já vira motivo de chacota. Por que será que isso acontece? Talvez porque muitos meninos sejam criados com a ideia de que precisam comer certos alimentos para provar sua "masculinidade". Mas será que a masculinidade se define assim? O que é, afinal, ser másculo?
Vamos inverter a lógica: se é uma mulher que aprecia esse tipo de comida, por que isso causa menos estranheza? Ao longo do tempo, consolidaram-se costumes e hábitos como se homens e mulheres precisassem, por natureza, ocupar papéis e ter modos de pensar e viver distintos. Até o homem que não gosta de futebol muitas vezes é alvo de pena, visto como "coitado".
Fico pensando por que tanta coisa gira em torno dos termos "masculino" e "feminino", quando, na origem, elas deveriam estar ligados apenas à definição biológica do corpo, e não a costumes, hábitos, escolhas amorosas e modos de viver.
O que significa, afinal, a expressão "eu sou macho"? Por que as mulheres não costumam dizer "eu sou fêmea"? Talvez porque uma palavra sozinha não precise carregar tantas expectativas. Não há muito o que provar sobre algo que já é evidente. Fico pensando, também, no porquê de tantos homens sentirem necessidade de se validar o tempo todo na sociedade. Vale voltar à cultura: ao que nos foi transmitido quando éramos crianças.
É comum que muitas crianças cresçam vendo o pai como provedor da casa e a mãe como responsável pelos afazeres domésticos. Assim, o menino cresce, às vezes, carregando uma responsabilidade que não precisaria ser só dele. Ele cresce sob a expectativa de que precisa pagar a conta num encontro, de que precisa cuidar sozinho das finanças da casa e de que é o responsável por consertar o que quebra. Isso foi naturalizado com o tempo. Quando esse homem adulto sente que não corresponde a tais expectativas, é comum que se sinta pressionado, inseguro ou incomodado com a ideia de ser sustentado por uma mulher, mesmo que, racionalmente, tudo esteja bem.
Este retrato é observado em pesquisas sobre masculinidade e saúde mental que mostram que identidade de provedor e autossuficiência aparecem repetidamente na forma como os homens relatam seu sofrimento emocional, muitas vezes dificultando o pedido de ajuda (MCKENZIE et al., 2018).
Talvez por isso, algumas vezes, um comentário leve como "deixa eu olhar isso, porque sou a provedora da casa", ainda que em tom de brincadeira, acabe pesando mais do que deveria. É como se tocasse em uma ferida sensível, fruto de expectativas antigas. Vale lembrar: na maioria das vezes, para a mulher está tudo bem, sobretudo para aquelas que deixaram alguns costumes para trás para tomar as rédeas da própria vida. Para muitas, tomar as rédeas das finanças é, na verdade, uma forma de liberdade diante de tantas expectativas antigas.
Esse peso todo também pode gerar, em alguns homens, uma sensação de vazio, como se estivessem sendo cobrados por algo, já que cresceram ouvindo o contrário: que isso seria inconcebível. Para alguns, é desconfortável que a companheira conquiste um ótimo emprego e ele precise se reorganizar, acompanhando-a até que ela encontre o seu lugar. Já da mulher, espera-se, muitas vezes, que seja natural acompanhar o parceiro, pois, tradicionalmente, ele deveria ser o provedor. Para ela, também não haveria problema: caso não consiga uma colocação, pode ficar em casa como "esposa troféu".
Mas será que, mesmo sendo uma "esposa troféu", não é preciso também cuidar desse papel? Os afazeres domésticos não constituem, também, um tipo de trabalho? Vale refletir: a rotina de uma casa pode ser tão ou mais exaustiva do que cumprir uma jornada de oito horas. Se for para simplesmente segurar um troféu, receber um salário mensal e ficar livre dos afazeres domésticos, talvez seria a melhor opção.
E por que o homem também não poderia ser o "marido troféu"? Vale refletir sobre os termos criados pela sociedade, frequentemente voltados à ideia de submissão da mulher, e a um peso desproporcional de responsabilidade atribuído ao homem.
Ao revisitar situações do dia a dia, é possível notar nuances da masculinidade imposta pela sociedade. Quem pertence à geração millennial talvez lembre de como funcionava: se houvesse desobediência aos pais, muitas vezes a última palavra geralmente vinha da figura masculina: "se você não me obedecer, vou chamar o seu pai!". E, de alguma forma, funcionava: bastava o pai falar um pouco mais alto, ou deixar à vista o instrumento de castigo (cinto, correia ou chinelo) sobre a cama, a mesa ou a cadeira, para que um silêncio se instalasse.
Em certas composições familiares, parece que a bronca da mãe precisa ser reforçada pela do pai. Não se trata de culpar a mãe por agir assim, já que esse comportamento foi naturalizado ao longo do tempo. Diante disso, pergunto-me: como funciona nas casas em que a mãe cria os filhos sozinha, independentemente dos motivos? Nesses casos, a obediência submete-se apenas à figura feminina, sem essa "segunda validação".
Fica, então, uma provocação: será que fomos criadas apenas para obedecer à figura masculina? Por quê? Seria por causa da força física? Pensando nisso, chegamos a outra camada possível de uma próxima discussão: a violência.
Para finalizar deixo aqui uma espécie de checklist que a sociedade imprime para nos sentirmos, de fato, femininos ou masculinos.
Para "ser um homem", espera-se que você:
Aprenda a trocar uma lâmpada, instalar um chuveiro ou realizar pequenos reparos domésticos.
Goste de futebol ou de carros — se gostar dos dois, melhor ainda.
Aprenda a fazer um churrasco perfeito.
Seja o provedor do lar.
Seja o motorista da casa.
Faça piadas sexuais com naturalidade.
Para ser considerada uma "mulher", esperam que você:
Execute (ou, no mínimo, saiba executar) todas as tarefas domésticas.
Seja mãe, e, idealmente, abra mão do seu sonho profissional para se dedicar a este papel.
Abra mão de parte da sua rotina social para cuidar da casa e do parceiro.
E agora fica a pergunta: quanto deste checklist ou situações do texto que você já vivenciou ou presenciou sem nem perceber que ninguém te obrigou a passar por isso?
Referência:
MCKENZIE, Sarah K. et al. Masculinity, social connectedness, and mental health: Men’s diverse patterns of practice. American journal of men's health, v. 12, n. 5, p. 1247-1261, 2018.

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